As pessoas tem a possibilidade de ter tudo mais como ter, ai vem o raciocino lógico ou o pensamento profundo sobre as coisas .
nunca devemos reclamar das coisas que não nos falta mais sim da possibilidade de os ter
XTITO
sexta-feira, 3 de março de 2017
quinta-feira, 2 de março de 2017
HELENA LA LIME
Helen la Lime,
embaixadora dos EUA em Angola: “Angola é uma democracia nova e que está a
evoluir”
| Editoria + Angola
| 01/02/2017
A
representante diplomática da maior democracia do mundo em Angola nega que o
país seja uma “ditadura”, definindo-o como “uma democracia nova e que está a
evoluir”. Em entrevista exclusiva à edição de fevereiro da ÁFRICA21, a
embaixadora americana em Luanda reconhece também a existência de uma relativa
liberdade de imprensa, mas pede mais. E deixa outros recados, como a
necessidade de um ambiente previsível, baseado no estado de direito e sem
grandes burocracias, para aumentar a cooperação entre Angola e os Estados
Unidos.

ÁFRICA
21 A senhora embaixadora está em Angola há dois anos. Que ideia tinha
do país quando chegou e que visão tem agora?
HELEN
la LIME Angola é um país com orgulho e tradição própria, que está no processo
da construção do seu destino. Sempre tive um entendimento de que Angola é uma
importante potência regional em África. Depois de dois anos, estou mais
convicta do grande potencial que este país tem e do exemplo que dá para o
continente. Espero que os Estados Unidos possam oferecer uma contribuição útil
neste esforço do povo Angolano.
Comparativamente
com as suas missões anteriores, o que é, para si, mais difícil em Angola? E
mais fácil?
Nunca
trabalhei num país com tanta diversidade de assuntos bilaterais. Como sabe,
Angola é um dos três únicos parceiros estratégicos dos Estados Unidos na África
Subsariana, a par da Nigéria e da África do Sul. Neste âmbito, temos uma série
de diálogos com o governo de Angola, que passam pelas áreas de energia, saúde,
comércio, política, segurança regional, direitos humanos, e tráfico de pessoas.
Acho
justo dizer que estamos a fazer progressos e que trabalhamos em questões
concretas. Por exemplo, abrimos na
embaixada os departamentos comercial e agrícola que prestam apoio aos
interesses comerciais das empresas americanas, que procuram oportunidades de
parceria com congéneres angolanas em diversos sectores. Em parceria com o
governo e empresários angolanos, esses departamentos da embaixada colaboram
para facilitar contactos entre Angola e as companhias americanas,
especialmente as ligadas à agricultura e à electricidade. Acredito que as
tecnologias e equipamentos das empresas americanas podem contribuir para a
diversificação e a produtividade da economia Angolana. E por isso,
facilitamos visitas de angolanos aos Estados Unidos. Para maximizar o potencial
do sector privado, é importante continuar a trabalhar na melhoria do clima de
negócios em Angola.
Noutro
domínio, os Estados Unidos continuam a contribuir para o bem-estar dos
angolanos através da parceria com o Ministério da Saúde. Por exemplo, em 2016
durante as epidemias simultâneas de malária e de febre amarela, nós doámos de
emergência 500,000 mil doses do medicamento Coartem, avaliados em meio milhão
de dólares.
Neste
período difícil para Angola, também trouxemos medicamentos de segunda linha
para tratar casos de malária grave e de kits de testes rápidos de malária, que
foram distribuídos a nível nacional pelo Governo de Angola. Relativamente à
febre amarela, trouxemos vários especialistas para aumentar a capacidade
laboratorial de diagnóstico e ao mesmo tempo, através da Organização Mundial da
Saúde, disponibilizamos um milhão de dólares para a aquisição de vacinas contra
a doença.
Aqui,
gostaria de sublinhar o sacrifício dos enfermeiros, médicos e do Ministro da
Saúde de Angola no combate a esses surtos. Foi graça a este esforço conjunto
que se evitou um número maior de mortes.
E
não ficamos por aqui, os Estados Unidos também são os principais doadores aos
esforços de desminagem em Angola. Estou orgulhosa, em particular, por termos conseguido,
em 2015, aumentar o nosso financiamento de quatro para dez milhões de dólares.
Para o primeiro trimestre de 2017, já comprometemos quatro milhões de dólares
neste processo e esperamos aumentar este valor.
Por
outro lado, o Governo e os seus parceiros estão a actualizar a base de dados de
campos minados e limpos destes engenhos. Este trabalho realça a esperança de
atingirmos a meta de uma Angola livre do impacto de minas até 2025. Para mim,
isto seria maravilhoso para o processo de diversifição económica.
Angola
é uma democracia ou uma ditadura?
Angola
é uma democracia nova e que está a evoluir com todos os desafios que isto
acarreta. O meu país tem estado, há mais de trezentos anos, a construir a sua
democracia. Por isso, Angola ainda tem um caminho pela frente para atingir uma
democracia mais consensual. Os Estados Unidos continuam disponíveis para
partilhar com os Angolanos a sua experiência nesta área.
Há
liberdade de imprensa em Angola?
Há
uma certa liberdade, sim. Poderia haver mais. Estou cá há mais de dois anos e
tenho assistido a altos e baixos sobre a liberdade de imprensa. Acho que também
é uma área que ainda está em construção em Angola. Devo aplaudir as diversas
iniciativas em que alguns órgãos de comunicação social discutem abertamente as
políticas macro-económicas e sociais do Governo. Falam livremente sobre a
corrupção, bem como promovem o debate contraditório. Esta abertura deveria ser
uma realidade em todo o país. Os Estados Unidos têm feito a sua parte para
ajudar a melhorar o ambiente da imprensa através da formação de centenas de
jornalistas e do intercâmbio entre profissionais de ambos os países.
Gostaria
de ver mais abertura, claro. Para mim as discussões abertas e construtivas são
importantes numa sociedade pela sua capacidade de construir e para libertar a
pressão no sentido de que as pessoas entendam melhor os desafios em curso.
Em
1975, apesar de algumas vozes no Departamento de Estado que defendiam o
reconhecimento do governo do MPLA, os Estados Unidos não o fizeram. Durante
décadas, e em particular a partir dos anos 80, decidiram apoiar a guerrilha da
UNITA, também instrumentalizada pelo apartheid sul-africano. O que ganhou o seu
país com isso?
Tudo
isto se refere a um período que já faz parte do passado. A história é história.
Eu prefiro falar do que estamos a fazer actualmente. Reconheço que estamos num
país com uma pluralidade de partidos políticos, com uma sociedade civil
vibrante, com um governo eleito democraticamente através de eleições e com um
povo que tem aspirações de consolidar a democracia neste país, e sobretudo de
elevar a sua prosperidade económica para que a promessa desta terra possa ser
usufruída por todos os Angolanos.
Hoje
Angola e os EUA têm uma parceria estratégica. Quais os contornos desse tipo de
relação?
Angola
é uma das grandes potências em África, sendo um dos três parceiros estratégicos
que nós temos no continente. A nossa parceria abrange uma série de diálogos de
trabalho. Alguns pilares que sustentam a nossa importante parceria passam pela
segurança regional, onde Angola desempenha um papel de liderança através do seu
trabalho na Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos. Por
outro lado, Angola é uma das três maiores economias de África ondes temos
grandes interesses económicos. Na saúde, fazemos investimentos avultados para
combater a malária, o VIH/SIDA e a melhorar o sistema nacional de distribuição
de medicamentos, com o objectivo de aumentar a esperança de vida dos Angolanos.
E
acha que a mesma está a funcionar?
Temos
uma relação bastante activa em que se faz muito, embora ainda haja um caminho a
percorrer.A iniciativa Power Africa é um projecto no qual vemos oportunidades
reais para apoiar o crescimento do sector eléctrico em Angola. Para tal, temos
já um consultor a trabalhar com o Ministério da Energia e Águas para apoiar os
esforços visando aumentar a produção e a distribuição de energia no país. Por
outro lado, as companhias americanas General Electric (GE) e a APR Energy estão
presentes na produção de energia e a contribuirem para uma Angola mais
iluminada.
A
nossa cooperação no sector da saúde está a funcionar bem. Sob nossa iniciativa,
tivemos uma parceria com o Governo de Angola para a realização do primeiro Inquérito Oficial de Indicadores Múltiplos e de
Saúde para o qual contribuimos com seis (6) milhões de dólares. Deste estudo,
há indicações sobre a redução da mortalidade infantil no país, e agora
esperamos pelos dados referentes à seroprevalência.
No
domínio da luta contra a SIDA, através da Iniciativa Presidencial para o Alívio
da SIDA (PEPFAR, sigla em Inglês), fizemos um investimento global que já
ultrapassou os USD150.000.000 desde 2005.
A
iniciativa envolveu nove centros de saúde em Luanda, que trabalham no
diagnóstico, tratamento e aconselhamento da população alvo das áreas
geográficas que têm o maior índice de VIH. Com este trabalho, alcançámos cerca
de 40% das pessoas a receber tratamento contra o VIH no país.
De
igual modo, o financiamento da Iniciativa do Presidente contra a Malária (PMI,
sigla em Inglês) apoia Angola para a redução de mortes e a morbidez por
malária. Desde 2006, a PMI investe anualmente quase vinte e sete milhões de
dólares para os programas de redução da mortalidade em 1/3 e de diminução de
doentes por malária em Angola na ordem dos 40% em seis províncias.
Em
2016, Angola foi declarada “livre da pólio” depois de cumprir cinco anos sem
registar um único caso. Este feito é fruto de 15 anos da nossa colaboração. Os
Estados Unidos apoiaram a logística e a formação de 3200 voluntários
comunitários para conduzir a vigilância e a mobilização dos cidadãos para a
vacinação em massa.
Gostaria
também de notar a nossa forte cooperação militar. Desejamos assinar em breve um
Memorando de Entendimento entre o Departamento de Defesa dos EUA e o Ministério
da Defesa de Angola para formalizar a nossa parceria nos sectores da segurança
marítima, formação de quadros, intercâmbio profissional, ensino de inglês e na
luta contra o VIH/SIDA e a malária nas Forças Armadas Angolanas.
O
que é preciso para reforçar as relações entre Angola e os Estados Unidos?
Em
2017, será importante que os angolanos continuem a trabalhar para um melhor
clima de negócios no país. As empresas americanas podem continuar a desempenhar
um papel central na economia de Angola. E gostaria de ver mais participação das
empresas americanas no desenvolvimento económico deste país. O sector privado,
incluindo o angolano, prosperará em ambiente dinâmico, com processos
previsíveis, competitivos e transparentes, livres da excessiva burocracia que
impedem as empresas e empreendedores de planificar, investir e crescer. O
progresso económico e a competitividade global é uma meta partilhada por todos
os países do mundo. Eu acredito que uma das formas mais efectivas para combater
as desigualdades económicas e sociais é através do fortalecimento do sector
privado.
Outra
área que é prioritária é a reforma do sistema bancário angolano para se alinhar
com os padrões internacionais e é importante que o Governo angolano faça o
necessário para aumentar a sua capacidade na área da regulação e supervisão
bancária. Combater os crimes financeiros e a corrupção são elementos essenciais
para garantir que o sector bancário angolano recupere a sua força e as suas
ligações com os bancos internacionais. Este sector tem de operar de uma maneira
transparente.
Obviamente,
à medida que melhoramos a economia e o sector financeiro, não podemos nos
esquecer da necessidade de termos força de trabalho qualificada sem a a qual
nada disto irá funcionar.
Por
isso, gostaria de aumentar os contactos entre as instituições angolanas e
americanas, como por exemplo, entre as universidades de ambos os países. Nós já
começámos com a bolsa Mandela Washington Fellowship, através da Iniciativa para
Jovens Líderes Africanos (YALI, sigla em Inglês). A bolsa Mandela
Washington Fellowship é um programa para apoiar jovens líderes africanos
visando promover o crescimento e a prosperidade, fortalecer a governação
democrática e consolidar a paz e a segurança em África. Esse programa tem
enviado dezenas de jovens talentosos angolanos às grandes universidades
americanas para se capacitarem em negócios/empreendedorismo, administração
pública e liderança cívica. Eu gostaria de ver um maior contacto entre as
universidades americanas e angolanas para permitir mais programas de
intercâmbio educacional, bem como ver universidades americanas a trabalharem em
Angola com as suas congéneres, sobretudo, na área da agricultura.
Acha
que, com a nova administração americana, isso será mais fácil ou mais difícil?
Neste
momento em que falamos, a nova Administração está ainda a adaptar-se a
estrutura governamental. Por isso, é prematuro falar se será mais fácil ou mais
difícil. Geralmente, a política externa dos EUA para África reune o apoio de
ambos os partidos Republicano e Democrata.
Esta
política é assente em valores fundamentais universais e constantes da nossa
democracia a despeito de quem esteja no poder nos EUA. Claro, haverá ajustes e
novas iniciativas e ansiamos conhecê-las. Contudo, esperamos que haja uma
relação dinâmica sob a Administração do Presidente Trump.
Pode
fazer uma apreciação da liderança do presidente José Eduardo dos Santos, quer
interna quer regional?
Internamente,
devemos reconhecer o papel que o Presidente dos Santos, tal como outros
angolanos, desempenhou para o processo de pacificação de Angola e a
reconciliação nacional. O facto de ter apostado em muitos quadros que vieram de
outros partidos para ocupar cargos de destaque na estrutura do estado, mostra a
sua visão de inclusão e unidade entre os angolanos. O Presidente dos Santos tem
promovido o respeito pela constituição e tem sido um dos pilares para a
garantia da paz.
No
quadro regional, saudamos os esforços de Angola e a liderança do Presidente
Eduardo dos Santos para a pacificação da África Central, sobretudo na RDC, RCA
e o Sudão do Sul. Desde que Angola assumiu a presidência da Conferência
Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, tem havido mais diálogo entre
os líderes regionais para se encontrar soluções sem o recurso às armas de forma
constante.
Como
encaram os Estados Unidos a notícia acerca da saída do presidente José Eduardo
dos Santos, assim como da indicação, pelo MPLA, de um novo candidato ao cargo
de presidente da República?
Nós
consideramos a transição como um processo normal da construção e fortalecimento
da democracia. Estamos prontos para trabalhar com qualquer figura angolana que
for eleita pelo povo angolano para a chefia do Governo do país.
Depois
de anos a crescer significativamente, após o fim da guerra, em 2002, Angola
entrou numa severa crise económico-financeira. Como vê o futuro do país, a
médio prazo?
Sou optimista.
Embora haja desafios, acredito no futuro de Angola. Para tal, é preciso
tomarem-se passos essenciais para a promoção da diversificação económica, onde
as pequenas e médias empresas sejam valorizadas, incluindo a agricultura
familiar. É essencial aumentar a transparência no país, lutar contra a
corrupção e diminuir os obstáculos de negócio para as empresas angolanas e
internacionais. Não podemos esquecer que o sucesso de qualquer país depende de
instituições previsíveis, do Estado de direito e da vontade do seu povo em
construir a nação.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
